domingo, 31 de dezembro de 2017

"A Luz do Corpo" de Joaquim Monteiro



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Ainda será possível escrever poemas de amor? Quem folhear a maioria dos livros publicados nas duas últimas décadas não deixará de reparar que as composições sobre o tema surgem marcadas pelo desencanto, o cinismo, a incomunicabilidade entre o eu e o outro. Tal poesia enfatiza a descrença nos afetos mais fundos e sublinha a irremediável fratura entre os amantes, como se não houvesse qualquer redenção ou entendimento possível.

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Ler o volume que o leitor segura nas mãos assemelha-se a reencontrar um velho amigo, porque “A luz do corpo”, seguido de “O difícil ofício” se enraíza nos motivos e estilo a que Joaquim Monteiro nos habituou, ao longo de uma obra profícua e talentosa. Tematicamente, o título deste volume resume o espírito dos poemas aqui coligidos: a exaltação do amor erótico, numa atmosfera de “incontida alegria”, sem margem para a culpa, à maneira de Walt Whitman, Fernando Pessoa ou Eugénio de Andrade, entre outros nomes maiores das letras universais.

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Se deixar de existir um espaço para a poesia de amor, um tema quintessencial, haverá futuro para a arte das letras? Numa entrevista ao suplemento Ípsilon, do jornal Público (2 de novembro de 2017), o romancista brasileiro Milton Hatoum lamenta que a literatura esteja a viver o seu “delicado crepúsculo” — e eu não poderia concordar mais. Implodimos na ignorância, na estupidez, no superficial. Sinais de uma época em que a velocidade substituiu a paciência; o imediatismo, o pensamento; a lassidão, o esforço. Nunca se falou e escreveu tanto — nas redes sociais e na blogosfera —, e paradoxalmente nunca se disse tão pouco. Babel cumpriu-se da forma mais retorcida: entendemo-nos, mas nada temos para comunicar. É altura de nos afastarmos do ruído para regressarmos ao essencial, que só o recolhimento proporciona; ao que apenas se segreda entre dois amantes; a tudo quanto cabe entre um verso e o leitor; à paixão eufórica pelo outro, que o talento de Monteiro agora nos oferece.
 
do prefácio de João de Mancelos