domingo, 31 de dezembro de 2017

"Marinhais" de F. Pereira Rodrigues



Conheci Francisco Pereira Rodrigues nos finais de mil novecentos e cinquenta e oito, numa festa de Natal, realizada numa das salas da Escola Primária.

Eu tinha “aterrado” em Marinhais há cerca de três meses para preencher o lugar de professora deixado vago pelo professor Mota de saudosa memória.

Em conversa com Pereira Rodrigues, concluímos que tínhamos algo em comum: a ambição de contribuir para o desenvolvimento de Marinhais, uma aldeia marcada pelo “labor insano” dos seus habitantes na atividade rural agrícola. Todos os Marinhalenses sonhavam e lutavam por uma melhoria de vida em várias vertentes: nível económico, social, cultural…

Pusemos mãos à obra e o sonho foi-se tornando realidade.

Importa destacar o contributo do nosso amigo Pereira Rodrigues, neste dia, em que todos lhe prestamos esta merecida homenagem.

Em Março de 1961, surgiu um primeiro livro com cerca de duzentas e sessenta páginas, contendo reportagens de jornais diários e semanários onde são relatados eventos não só alusivos a Marinhais, mas também às zonas limítrofes.

Uma grande parte desses relatos são de autoria de Pereira Rodrigues; outros, porém, são de amigos que, com ele, colaboraram. Destaco a participação de Hugo Rodrigues, exímio na arte de bem escrever.

Para quebrar a monotonia da narrativa, (diga-se muito cuidada), Pereira Rodrigues teve o cuidado de ilustrar muitos temas com fotografias; de publicar poemas da sua autoria que muito valorizavam a obra. Ele era um poeta onde a métrica, a rima e o ritmo funcionavam na perfeição.

Nos vários itens apresentados no primeiro volume, merecem destaque as notícias sobre a origem de Marinhais, o relato dos trabalhos agrícolas, as festas desportivas, os usos e costumes dos mais idosos, os melhoramentos que se iam concretizando, as festas religiosas, a homenagem a quantos iam partindo para a outra vida e tinham lutado pela valorização do seu torrão natal.

Concluído o primeiro volume, o entusiasmo não esmoreceu. Pereira Rodrigues quis dar continuidade à sua obra.

Com a mesma dedicação e espírito empreendedor, iniciou o segundo volume onde deu particular destaque ao comércio local e ao seu desenvolvimento, às festas populares, aos novos empreendimentos; numa palavra, ao esforço de quantos lutaram por uma melhor qualidade de vida de todos os Marinhalenses.

Pereira Rodrigues tudo fez com arte, com sabedoria, com “o orgulho de ser ribatejano” como nos diz no belo soneto da página 175, 1.º volume (actual página 91), intitulado Ribatejo. Pereira Rodrigues quis, com este árduo e persistente trabalho, legar à posteridade um conjunto de informações precisas sobre o passado longínquo de Marinhais que servem de alicerce àquilo que todos usufruímos: uma vida acolhedora, pacifica, atraente, onde a qualidade de vida é uma mais valia que atrai muitas pessoas da cidade e os entusiasma a adquirir uma segunda habitação para férias e/ou fins de semana.

Francisco Pereira Rodrigues faz parte de um daqueles anónimos a quem Camões se refere no sumário do seu poema épico: “Aqueles que por obras valorosas / se vão da lei da morte libertando / cantando espalharei por toda a parte”.

Sim, Francisco Pereira Rodrigues partiu para junto do pai, mas não cairá no esquecimento de todos quantos beneficiam do seu trabalho, do seu testemunho, da sua capacidade de entregar e, acima de tudo, do seu amor à terra que o viu nascer.

Este é o nosso gesto de gratidão! Esta é a nossa homenagem!

Antes de terminar, manifesto o meu louvor e o meu aplauso a quem teve a iniciativa desta publicação.

Exorto a que se dê continuidade à publicação de outros trabalhos e / ou testemunhos que andam por aí dispersos e que podem contribuir para alargar o nível cultural desta parcela ribatejana que muito dignifica os seus habitantes.

Maria da Luz Barreira