domingo, 31 de dezembro de 2017

"Piedade uma Paixão em Gondramaz" de Clementina Matos




A perda de uma criança ao nascer, o achamento de um cachorro perdido no mato, a proliferação de castanheiros, a partilha e o ato de proteção associados ao nome de Martinho, criaram a imagem da alma que paira numa zona montanhosa do distrito de Coimbra.

Em 1928, algures no coração da serra da Lousã, a aldeia de Gondramaz registou no seio dos seus habitantes o nascimento de uma menina. Maria da Piedade cresceu feliz e acalentou durante a sua juventude o sonho de vir a ser mestra de crianças, mas a sua condição de serrana facultou-lhe apenas o apego à imagem da concertina que ela associava ao livro abrindo e fechando, nos dias de festa da aldeia.


Esta jovem teve uma paixão por Gonçalo, um rapagão que por ali apareceu um dia e com quem viria a casar. Viveu infeliz para sempre a partir desse momento. O homem, que entretanto se tinha tornado escultor de pedra mole, manteve-a semi-encarcerada e submetida com próprio consentimento, porque ela o temia e amava cegamente sempre com a esperança de um dia vir a ser estimada pelo marido.

A debandada geral dos habitantes da aldeia nos anos de 1960, para terras do Brasil, entregou o sítio ao esquecimento e à ruína em que o foi encontrar um casal de Leiria que por ali apareceu, depois de se ter perdido nos caminhos da serra dentro de um todo-o-terreno.

Apenas 7 pessoas ainda lá permaneciam, vivendo separadas da localidade mais próxima: Miranda do Corvo.

Aconteceu isto no final da década de 80.

E um processo de repovoação se iniciou. Eram agora os turistas, em busca do retorno às origens, à paz da montanha e ao silêncio das noites calmas, que ali reabilitavam os casebres de xisto e movimentavam as ruelas do sítio, aos fins de semana e em datas festivas.

A Maria da Piedade, agora velha e sofrida, conta a uma dessas turistas a história da aldeia do seu tempo, a alegria perdida, os sonhos e os pesadelos vividos.

Desvendam-se realidades tristes desconhecidas dos forasteiros que perspetivam a serra apenas do lado da beleza visível, o pitoresco sobrepondo-se à tragédia das vidas serranas.

Isadora vem do Porto, compra a sua casa de férias nessa aldeia e tenta salvar a Maria da Piedade de um fim de vida indigno, mas não chega a tempo.

E é em 2010, junto à campa da amiga, que uma jura dá lugar à ressurreição da alma da jovem serrana, a qual se transforma em lenda, para que não seja esquecida.

O seu casamento com a montanha e com os castanheiros que a viram nascer surge da sua capacidade de amor e de perdão, tornando-se imortal.

Nessa aldeia se vendem, ainda hoje, as estátuas toscas esculpidas em xisto, representando imagens que pretendem expressar o sentimento de paixão suprema. São as Pietà.

Clementina Matos